A Gruta Entre o Céu e a Pedra: A Conversão de Sami
Nas montanhas antigas, onde o vento parece guardar segredos que nenhum homem ousa repetir, vivia um padre eremita de rito oriental. Todos o chamaram simplesmente de Abuna Elias . Seu eremitério era uma pequena grua de madeira, suspensa entre rochedos, ligada à terra por uma ponte estreita que parecia uma fita de silêncio. No topo, como um farol entre nuvens, erguia-se sua capela minúscula , feita de pedra rugosa, incensada pelo vento e iluminada apenas por uma lamparina que jamais se apagava.
Abuna Elias viveu há décadas. Não tinha nada além do essencial: um livro das Escrituras — gastas de tanto serem tocadas — um ícone de Cristo Pantocrator, uma cruz de oliveira, um jarro de água e um tapete de oração. E, mesmo assim, a solidão sua era constantemente interrompida. Aquelas alturas eram mais procuradas que muitas cidades da terra baixa, porque a fama do velho asceta corria como um rio bloco: silenciosa, mas viva.
Os peregrinos subiam a montanha carregando pecados, dúvidas, dores e desassossegos. Voltavam, quase sempre, como quem reencontra o fôlego.
Certa manhã, porém, subiu até ele um homem diferente.
Chamava-se Sami , filho de comerciantes. A fama dele também corriia — mas pelos motivos errados. Era conhecida pelas armadilhas, pelas dívidas, pelo ganho fácil que esfarelava vidas. Viviam contando que ele tinha o coração duro “como pedra que nem a água tenta polir”.
Sami chegou diante da grua suando, com o ar perdido, como quem foge de si mesmo. Bateu na porta simples feito de madeira esbranquiçada pelo vento.
— Abuna… — chamou, a voz embargada.
O velho eremita abriu. Seus olhos eram límpidos como as pessoas que já colocaram o mundo inteiro aos pés de Deus.
— O que você procura, filho? — Perguntei, direto como um machado, mas com as vantagens de quem corta para curar.
Sami respirou fundo, incapaz de inventar desculpas naquele lugar onde até as mentiras desistiram de subir.
— Vim porque… já não sei quem sou. — suas mãos tremiam. — Eu arruinei vidas. Enganei pessoas. E agora alguém veio cobrar o que devo… e não falo de dinheiro.
Os olhos de Abuna Elias encontraram empresas nele. O silêncio da montanha pesou.
—Senta -te. — o padre designado para um banco estreito. — E ouça a tua alma enquanto ela fala a verdade pela primeira vez.
Sami, como criança que aprende a respirar de novo, conta tudo: negócios sujos, traições, a ganância que devora sem nunca se saciar. Terminando dizendo:
— Não sei como mudar. Temo a justiça de Deus… e temo a vergonha dos homens.
Abuna Elias fechou os olhos e assim por um longo tempo. O vento soprou como que passando contas de rosário pelo vale.
— O medo da justiça nunca converteu ninguém , Sami. — disse ele, enfim. — Mas o desejo de ser verdadeiro… esse muda até pedra em carne.
A eremita caminhou até o pequeno altar. Pegou sua cruz de oliveira — simples, gasta, mas viva.
— Filho, a vida não muda quando tu foges do que foste. Muda quando deixa que Deus te colha como um ramo seco e faça dele lenha para uma nova chama.
— Mas é tudo o que fiz? — perguntou Sami. — Como recomeçar?
Abuna Elias sorriu um sorriso curto, daqueles que carregam séculos de sabedoria.
— Recomeçar é simples. Doloroso, mas simples. Vai até cada pessoa que feriste. Pede perdão. Repare o que você pode. O que não puder, entregue a Deus e viva de modo que sua nova vida responda pelo passado.
Sami engoliu seco.
— E se me marryrem?
— Então você terá uma verdade vívida. E a verdade, meu filho, é sempre o começo da santidade.
Aquelas palavras entraram nele como luz por uma janela fechada há anos.
Naquela hora, Sami chorou — não lágrimas de desespero, mas lágrimas de quem finalmente se encontra.
Desceu a montanha outro homem. Cumpriu o que Abuna Elias mandou: restituiu, pediu perdão, desfez tramas, abriu mão de lucros simples, rompeu alianças tortas. Perdeu muito dinheiro — ganhou paz. E no silêncio do coração, vemos que, pela primeira vez, dormia sem que sua consciência gritasse.
Meses depois, voltei à montanha. Encontrou Abuna Elias rezando diante do ícone.
— Abuna… voltei para agradecer. Minha vida começou de novo.
O eremita abriu os olhos, serenos como antes.
— Não agradeça a mim, filho. Eu apenas te apontei o caminho. Foste tu quem caminhou. E Deus, como sempre, fez o resto.
Sami falou como quem descobre que viver também é uma forma de oração.
E ali, naquela gruta perdida entre céu e pedra, dois homens disseram pouco — porque, quando a graça envelhece, até o silêncio se ajoelha.