quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Quando o breviário cai no esquecimento: uma ferida silenciosa no sacerdócio


Quando o breviário cai no esquecimento: uma ferida silenciosa no sacerdócio

Houve um tempo — e não faz tanto assim — em que o dia do padre era marcado pelo sino e pelo salmo. A manhã começava com Deus, o entardecer voltava a Deus, e a noite se deitava n’Ele. Hoje, em muitos lugares, o sino foi substituído pelo celular, e o saltério… bem, o saltério ficou esquecido numa estante empoeirada, como uma relíquia de um catolicismo considerado “exigente demais”.

É preciso dizer com clareza, sem rodeios e sem medo de parecer antipático: o breviário não é opcional. Ele é obrigatório. Não por capricho romano, não por nostalgia monástica, mas porque o padre não reza apenas por si. Ele reza em nome da Igreja. Quando um padre abandona o Ofício Divino, não é só sua vida espiritual que empobrece — é a Igreja inteira que perde uma voz.

O drama é que muitos padres hoje não deixaram de rezar o breviário por perseguição ou excesso de trabalho, mas por algo bem mais banal: desleixo espiritual travestido de “pastoral ativa”. Há tempo para reuniões intermináveis, para cafés, para redes sociais, para opiniões sobre tudo — menos para aquilo que a Igreja sempre considerou essencial. Como se fosse possível sustentar o altar sem sustentar o joelho.

O argumento é conhecido e gasto: “Deus entende, a pastoral consome, a realidade mudou”. Mudou, sim. Mudou o mundo, mas Deus não mudou. E a alma do padre continua precisando do mesmo remédio de sempre: oração regular, objetiva, eclesial — mesmo quando não dá gosto, mesmo quando não emociona.

O breviário tem uma virtude que assusta: ele nos tira do centro. Não é a minha oração, é a oração da Igreja. Não escolho o tema, não escolho o salmo, não escolho o humor. E talvez seja exatamente isso que incomode tanto. O breviário forma padres obedientes, constantes, enraizados — não animadores religiosos movidos a inspiração do dia.

Quando um padre deixa de rezar o Ofício, algo se quebra silenciosamente. A pregação perde densidade, a escuta perde profundidade, o discernimento vira opinião pessoal. E então surgem padres cansados de tudo, mas que curiosamente nunca cansam de falar… só de rezar.

Não se trata de apontar dedos, mas de chamar à realidade: sem breviário, o sacerdócio vai ficando funcional, administrativo, seco. A tradição da Igreja não insistiu nisso por teimosia, mas por sabedoria acumulada ao longo de séculos. Padres santos não rezavam o breviário porque “sobrava tempo”; rezavam porque sabiam que, sem ele, tudo o mais desmorona.

Talvez seja hora de recuperar uma verdade simples e incômoda: antes de fazer coisas para Deus, o padre precisa estar diante de Deus. E o breviário, rezado fielmente, todos os dias, continua sendo um dos caminhos mais seguros — antigos, silenciosos e eficazes — para que o coração sacerdotal não se perca no barulho do mundo.

Rezar quando dá vontade é poesia; rezar quando não dá vontade é fidelidade. E fidelidade, no fim das contas, é o nome antigo do amor.

Então, quando faltar tempo, corte outra coisa. Quando vier a preguiça, reze mesmo assim — mal, cansado, arrastado. Deus não se escandaliza com a tua fraqueza; Ele se entristece é com a tua ausência.

O breviário não exige que você esteja bem. Ele existe justamente para quando você não está.

O resto é desculpa. E a Igreja já ouviu desculpas demais.

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