Ao nos aproximarmos dos limites de um novo ano, não o fazemos como quem apenas troca a folha do calendário, mas como quem se coloca diante de Deus com a alma descoberta. O tempo que se abre à nossa frente não é promessa de facilidades, mas convite à fidelidade. Um ano cristão não se mede pelo sucesso, mas pela profundidade da vida interior.
Que o ano que vem esteja marcado, antes de tudo, pela oração. Não uma oração apressada, dita por hábito ou obrigações, mas a oração do coração: silenciosa, perseverante, humilde. Aquela que se sustenta quando as forças faltam e que permanece mesmo quando não se sente nada. Que não nos deixemos vencer pelo cansaço, pela exaustão da alma ou pelo ruído do mundo, mas que cada dia encontremos em nós um espaço reservado para Deus, ainda que pequeno, ainda que pobre.
Que seja também um ano de penitência. Não como tristeza estéril, mas como lucidez espiritual. A penitência nos devolve à verdade sobre nós mesmos, quebra o orgulho, educa a vontade e purifica o amor. Ela nos lembra que não vivemos para nós, que a cruz não é um acidente no caminho cristão, mas parte dele. Quem foge da penitência acaba cansado demais para amar.
E que seja, sobretudo, um ano de caridade. Caridade concreta, encarnada, sem aplausos. Amar a ponto de esquecer de si mesmo, de abrir mão da própria razão, do próprio conforto, do próprio tempo. Pensar no outro antes de pensar em si — isso é profundamente cristão e profundamente difícil. Mas é aí que o Evangelho deixa de ser discurso e se torna vida.
Que não sejamos vencidos pela dureza dos dias nem pela frieza dos corações. Que aprendemos a amar quando é fácil e quando não é. A rezar quando sentimos consolo e quando só resta fidelidade. A perseverar, mesmo cansado, porque a graça sustenta aquilo que a natureza já não consegue carregar.
Entregamos o novo ano nas mãos de Deus, com tudo o que somos e tudo o que nos falta. Se houver oração, penitência e caridade, beneficie fruto. Talvez não aos olhos do mundo, mas certamente aos olhos do Céu. E isso basta.
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